O proprietário liberou o apartamento para as três da tarde, tem compromisso às três e meia e já avisou que não dá para voltar outro dia. Você chega, olha a sala, o sol batendo forte na janela, e tira o celular do bolso.

O que você fizer nos próximos vinte minutos vai decidir se esse anúncio vira mais um no meio de dezenas iguais ou se o cliente vai ligar pedindo para visitar. E a boa notícia é que tirar fotos de imóveis com celular, do jeito certo, depende muito mais de algumas decisões do que do aparelho que você tem na mão.

O objetivo da foto não é ficar bonita

Parece estranho dizer isso num texto sobre fotografia, mas é o ponto de partida. A foto de imóvel existe para o cliente entender o imóvel. E cliente que entende o imóvel se sente seguro para agendar a visita ou até fazer uma proposta.

Por isso a foto da torneira dourada, da luminária charmosa ou do vaso de flor na bancada não ajuda. Ela pode até ser bonita, mas não responde nenhuma pergunta de quem procura: qual o tamanho da cozinha? Ela é aberta para a sala? Onde fica a janela? Cabe uma mesa ali?

Cada foto precisa mostrar o ambiente inteiro, com o máximo de paredes, portas e janelas que couber no quadro. Close de detalhe é a primeira coisa a cortar.

A lente certa: use a 0,5x em quase tudo

Abra o app da câmera do seu celular e procure a opção 0,5x (em alguns aparelhos aparece como 0,6x). Essa é a ultra grande angular, a lente que enxerga mais espaço de uma vez. Na fotografia de imóveis, ela é usada em praticamente todas as fotos.

Sim, ela distorce um pouco as bordas. Mesmo assim, é o que existe de melhor para mostrar um ambiente completo. Uma foto em 1x de um quarto pequeno mostra uma parede e meia; a mesma foto em 0,5x mostra o quarto.

Se o seu celular não tem nenhuma opção abaixo de 1x, ainda dá para melhorar muito com as dicas abaixo. Mas, quando for trocar de aparelho, esse é o primeiro item a conferir, antes de qualquer número de megapixels. Se estiver nessa fase, veja como escolher celular para fotos de imóveis.

Altura e posição: reto, no meio da parede

O erro mais comum em foto de imóvel é o celular inclinado. Inclinado para baixo, as paredes parecem cair para dentro. Erguido acima da cabeça e apontado para baixo, o ambiente inteiro fica distorcido, e isso aparece até em trabalho de gente que se diz profissional.

A regra é simples: o celular fica na metade da altura do ambiente. A maioria dos apartamentos e casas tem pé-direito (a distância do chão ao teto) de cerca de 2,40 m, então a foto sai a mais ou menos 1,20 m do chão.

Cada pessoa precisa achar a sua referência. Para quem é alto, 1,20 m fica perto do peito. Para quem é mais baixo, perto do rosto. Descubra onde fica a sua e fotografe sempre dali.

Ilustração: sala de estar ampla fotografada da entrada com a lente 0,5x e o celular na altura do peito

E mantenha o celular reto nos dois sentidos: sem inclinar para a frente e sem entortar o horizonte. Ative a grade do app da câmera e alinhe as linhas verticais da porta ou da parede com as linhas da tela.

Onde se posicionar: os três ângulos de cada ambiente

Em cada cômodo, existem três fotos que você procura.

A foto inicial é a visão de quem acaba de entrar pela porta. É a primeira imagem que qualquer pessoa teria ao entrar naquele ambiente, e ela vale para todos os cômodos.

A foto reversa é o ângulo oposto: você vai até o outro lado e fotografa de volta, na direção da porta.

A foto campeã é a que mostra mais informação útil sobre o ambiente. Pode ser a inicial, a reversa ou outra. Um teste ajuda a reconhecer: se você tivesse que apagar todas as fotos daquele cômodo e ficar com uma só, qual seria? Se uma foto mostra duas paredes e uma janela, e a outra mostra duas paredes, a janela, a porta e o armário, a segunda é a campeã.

A maioria dessas fotos sai na diagonal, de um canto do cômodo, com a lente 0,5x. É o jeito mais fácil de pegar duas paredes inteiras e dar profundidade ao ambiente.

Luz: acenda tudo, mesmo com sol lá fora

Ambiente escuro passa má impressão. Por isso, antes da primeira foto, acenda todas as luzes do imóvel, inclusive em dia de sol.

O motivo é que a foto de imóvel vai contra uma regra básica da fotografia: quase sempre você está fotografando contra a luz, com uma janela recebendo sol forte bem na frente da lente. Se só a luz de fora entra, o interior fica escuro. Se você clareia o interior na marra, a janela estoura e vira um retângulo branco.

O trabalho é equilibrar a luz de dentro com a de fora, para que dê para ver o ambiente e a vista ao mesmo tempo. Acender as luzes é o primeiro passo desse equilíbrio, e a edição completa o resto.

Sobre horário: o nascer e o pôr do sol equilibram bem as duas luzes, mas cada imóvel tem a sua hora. Um raio de sol entrando pela janela ou pela sacada faz muita diferença na foto, porque passa a ideia de um lugar arejado, saudável, sem mofo. Na vida real, porém, você quase sempre fotografa no horário que o proprietário pode receber. Então faça o melhor com a luz que tiver.

O caso mais difícil é o dia nublado: fica muito claro lá fora e muito escuro dentro. Aí vale tudo para compensar, como luzes extras e qualquer iluminador que você tiver à mão. Esse caso tem um texto só dele: como fotografar imóvel em dia nublado.

Qualidade máxima: guarde informação para a edição

Quanto mais informação a foto guardar, mais dá para corrigir depois: clarear um canto escuro, recuperar a vista que ficou clara demais na janela, chegar a um resultado com cara de profissional. Por isso, a regra é fotografar sempre com a maior qualidade que o seu celular oferece.

O melhor formato para isso é o RAW (um arquivo que guarda tudo o que o sensor da câmera captou, sem compressão). O problema é que ele costuma aparecer só nos celulares mais caros, às vezes escondido no modo Pro ou nas configurações avançadas. Se o seu tiver, use.

Se não tiver, ainda dá para chegar perto:

  • Escolha a maior resolução disponível. Muitos celulares saem de fábrica numa resolução menor para economizar espaço. Vale conferir nas configurações da câmera.
  • Fique na câmera original do celular. Ela foi ajustada pelo fabricante para tirar o máximo daquele conjunto de lentes e sensores. Aplicativos de câmera de terceiros costumam prometer mais e entregar menos.
  • Se tiver a opção HDR, use sempre. Ele junta várias exposições numa foto só e ajuda a equilibrar a janela clara com o interior mais escuro, que é justamente a briga da foto de imóvel.
  • Desligue filtros e embelezamento. Esses efeitos alteram cores e texturas e atrapalham a edição depois.

Uma foto em resolução baixa e cheia de filtro deixa pouca coisa para fazer na edição. Uma foto limpa, na qualidade máxima, já chega meio caminho andada.

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Banheiro e espelho: não fuja do ângulo bom

O celular é ótimo para banheiro, porque cabe encostado no batente da porta e consegue ângulos que uma câmera grande não alcança.

O problema costuma ser o espelho. Muita gente abandona o melhor ângulo do banheiro só para não aparecer no reflexo. Não faça isso. Hoje dá para remover a pessoa do reflexo com inteligência artificial e, no pior caso, desfocar essa área.

Uma dica que vai contra o costume: em vez de se vestir de preto para passar despercebido, use roupa colorida. Se você aparecer em algum reflexo, vai ser fácil enxergar e corrigir na edição, sem nada passar batido. O passo a passo completo está em como fotografar banheiro sem aparecer no espelho.

Prepare o imóvel antes de fotografar

Nenhuma técnica salva uma cozinha com louça na pia. Antes de começar, passe pelo imóvel com o proprietário e combine:

  • itens muito pessoais fora de vista, como bandeira e objetos de time de futebol (o comprador ideal pode torcer para o rival e nem visitar);
  • remédios e equipamentos de saúde guardados, porque transmitem uma impressão ruim do lugar;
  • porta-retratos de família recolhidos, para preservar quem mora ali;
  • cozinha limpa, lavanderia em ordem e nada jogado pelos cômodos.

Muito proprietário vai dizer que "é uma casa viva, mora gente aqui". Tudo bem: em casa a gente passa o dia de pijama. Mas, quando vai a uma festa, se arruma para causar boa impressão. A pessoa é a mesma. No dia da foto, o imóvel vai à festa. A lista completa está em como preparar o imóvel para fotos.

Fotografe na ordem do caminho

Aqui está o que separa uma pilha de fotos de um anúncio que funciona. Fotos soltas, sem ordem, fazem o cliente se perder: ele vê uma cozinha, depois um quarto, depois um banheiro, e não faz ideia de como uma coisa se liga à outra.

A saída é incluir fotos de ligação: fotos tiradas entre dois ambientes, com as portas abertas, que mostram como se sai de um cômodo e se chega ao próximo. A sala com a cozinha ao fundo. A sala mostrando o começo do corredor. O corredor mostrando a porta do lavabo.

Montadas em sequência no anúncio, essas fotos funcionam como uma visita guiada. O cliente monta a planta na cabeça antes de pisar no imóvel, e chega na visita sabendo o que quer ver.

Quanto à quantidade, os portais costumam exigir pelo menos 20 fotos. O ideal é chegar a 30 ou mais, cobrindo todos os ambientes e as ligações entre eles. Para montar a sequência no portal, veja a ordem das fotos no anúncio de imóvel.

Qual foto vai na capa

A capa tem um pouco de tentativa e erro, mas o caminho mais comum é usar a melhor foto da sala, que em geral é o ambiente mais amplo, ou um destaque forte do próprio imóvel, como uma piscina privativa.

Uma regra que não muda: a capa é de dentro do imóvel. Piscina, academia e salão de festas do condomínio são de todos os apartamentos do prédio e não diferenciam o seu anúncio.

Antes de publicar, edite

Mesmo com tudo bem feito, a foto sai do celular precisando de ajuste. Um aplicativo como o Lightroom, que tem versão para celular, resolve. O critério é tirar os extremos: nenhuma janela tão branca que esconda a vista, nenhuma sombra tão preta que não se saiba o que tem ali. Na fachada, aproveite para apagar o número do imóvel. O ajuste por ajuste está em como editar fotos de imóveis no Lightroom.

Com um celular que tenha a lente 0,5x e a posição certa, você já chega a boa parte do resultado de um profissional. O que falta costuma ser prática: repetir a sequência de ambientes até ela virar automática, de modo que naqueles vinte minutos com o proprietário olhando o relógio você saiba exatamente onde parar e o que fotografar.